Por uma sociedade em que pega mal mentir a idade

No dia 22 de novembro participei de um evento organizado pela Vem, Vida, primeira empresa de suplementos especializada nas necessidades das pessoas com 60 anos ou mais, sobre como podemos nos manter saudáveis para viver mais e melhor. Uma pergunta de um dos palestrantes me chamou a atenção: “Por que escondemos a idade”? “Porque não aceitamos que estamos envelhecendo”, foi a resposta de uma das participantes. “Mas será que se a sociedade aceitasse os 60+ precisaríamos mentir?”, replicou o palestrante. E é nessa reflexão, dentro desse assunto tão amplo e fascinante que é o envelhecimento populacional, que gostaria de focar. Cerca de 90% dos brasileiros acreditam que existe preconceito contra o idoso, ou 9 em cada 10 pessoas escutadas pelo Datafolha na ocasião do estudo, em 2017. Do seu lado, as pessoas com 60 anos de idade ou mais não se sentem representadas de maneira geral: não há espaço para elas no mercado de trabalho, não se enxergam nos produtos e nas campanhas de publicidade do mercado de consumo, não existem políticas públicas que atendam esse público em sua diversidade de perfis atuais e que alcancem todas as parcelas da população. Essas pessoas mudaram e a sociedade parece não ter percebido.

Quando analisamos todos os números da chamada revolução da longevidade confrontado com esse cenário de baixa representatividade a palavra choque vem bem a calhar. Isso porque nossa expectativa de vida aumenta de forma mais rápida que nos demais países – se o brasileiro vivia, em média, até os 45 anos de vida em 1940, nós passamos para surpreendentes 75,8 anos em 2017, número que muito provavelmente vai aumentar em dezembro deste ano, na divulgação do novo índice pelo IBGE. O Brasil terá, em 2030, mais idosos que crianças entre 0 e 14 anos e, em 2055, a população brasileira 60+ será superior que a de crianças e jovens com até 29 anos. Ou seja, de uma forma ou de outra os 60+ terão que ser reinseridos no mercado de trabalho, que passará a valorizar essa mão de obra, mencionando apenas um exemplo de mudança necessária. Aqui sairá na frente quem, o mais rápido possível, compreender a importância desse poderoso movimento, oferecendo ferramentas para que as pessoas vivam de fato melhor. E uma forma muito simples de apoiarmos a mudança, pensando nos 60+ que seremos no futuro e na sociedade que queremos construir é começando pela mudança de comportamento, que acaba por mudar a cultura. Começando por assumir com orgulho nossa idade, ela que carrega nossa trajetória de vida e profissional, da maneira que chegamos até aqui. E tratando todos, idosos, jovens ou crianças, com respeito, regra número um de todos os relacionamentos.

Essa mudança cultural também passa pela conscientização de que os 60+ de hoje são diferentes dos idosos de antigamente. E que essa representação antiga das pessoas com sessenta anos de idade ou mais está ultrapassada e precisa evoluir. Há uma infinidade de perfis de idosos, resultados de histórias de vida e trajetórias profissionais diversas: muitos deles possuem contato frequente com a tecnologia, alguns seguem trabalhando ou empreendendo, possuem uma vida social ativa, ou seja, evoluíram com as transformações da sociedade. Vejo uma sociedade mais inclusiva e diversa como a que atende todo o seu público e que este, por sua vez, se vê representado nela em todas as esferas: políticas públicas, mercado de trabalho e de consumo em todos os segmentos. E é essa sociedade, em que as pessoas tem orgulho da própria idade, que me representa.

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